• Cristiane d'Avila

Sábado, 05/02/1921

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Antonio Sergio – Está você há muito tempo no Brasil, e ainda não tive o prazer de o conhecer pessoalmente. Sabia do seu trabalho de instalar aqui o depósito e oficinas editoras da Renascença Portuguesa[COB1] , e de há muito admirava o pedagogista e o escritor que é você. Só.


Vai para uns 15 dias, antes de fazer o seu conhecimento pessoal, venho recebendo, volume sobre volume, as últimas edições da Renascença. Há reedições de clássicos, há autores brasileiros, notáveis e ilustres como o Mario de Alencar, há escritores lusitanos... Enfim, a obra da Renascença é, agora, dirigida cá por você, realmente a afirmação de um formidável esforço realizador do tão necessário mútuo conhecimento da mentalidade dos dois países. E, como todos esses livros são dirigidos não a este jornal mas a mim, antes da crítica deles falar, aqui lhe deixo o meu agradecimento e o meu louvor.


Infelizmente com eles vai a retificação a uma nota da Águia, revista da Renascença. Aí a encontrei contra o grande poeta João de Barros, mostrando irritação pelo êxito do autor do Anteu no Brasil. A nota da Águia vê no acolhimento admirativo dos brasileiros o que não basta: a minha amizade.


Ora, ilustre confrade, não quero discutir no estreito limite deste bilhete o mérito poético de João de Barros nem o seu espírito sedutor, nem a sua alma de cristal. Quero dizer apenas que João de Barros, grande patriota português, foi o primeiro dos escritores, após o ceticismo da geração de Eça, a compreender a necessidade da nossa aproximação, a escrever de escritores brasileiros em revistas francesas e belgas.

Depois, como é detentor das vitórias, foi ele a coordenar a obra de amizade, de fraternidade, de amor, amando e querendo de verdade os brasileiros.


Os brasileiros seriam ingratos se não estimassem o grande espírito pelo que ele tem feito de generoso, de nobre, em louvor do Brasil, realizando assim a dilatação do seu coração de patriota, de exaltado crente, de realizador da glória nova de Portugal.

De João de Barros, poeta, pode pensar a Águia que ele é fácil e posso pensar eu que ele é a maior expressão atual da Raça. De João de Barros, caráter sem jaça[COB2] , esplendente coração, e da sua digníssima obra de amor entre Portugal e Brasil – não pode haver opiniões discordantes – porque mais não seriam que provas de injustos despeitos literários.


Não é trazendo rivalidades literárias à resolução de graves problemas que conseguimos resolvê-los. João de Barros, sempre que esteve no Brasil, não disse de um só escritor português, palavras senão de elogio. De muitos sofrera ataques; fora da sua terra, porém, elogiava-os.


Você está no Rio há tempo, e deve conhecer como os literatinhos me estimam. Não há um que me não tenha insultado e que, ou antes ou depois, não me tenha elogiado também. Tenho no Brasil por essa cáfila – desde menino – o mais profundo desprezo. Mas em Portugal, mesmo diante de um dos artigos de literatura de “apedido[COB3] ”, escritos contra mim, nunca me pediram a respeito dos autores informações que as não desse elogiosas. Ora, se assim devemos proceder com os zeros envenenados, como é possível proceder de outro modo com os verdadeiramente grandes? Quando se comete uma injustiça com aquele que é Maior, só fica diminuído quem comete a injustiça.


Você poderá transmitir aos redatores da Águia esta opinião, e aceitar o justo reclamo que faço à obra da Renascença, continuadora prática, neste momento, do grande sonho de João de Barros há 14 anos.

Confrade


João do Rio


[COB1]http://www.citi.pt/cultura/literatura/poesia/j_g_ferreira/renascen.html

[COB2]http://www.aulete.com.br/ja%C3%A7a

[COB3]http://www.aulete.com.br/apedido

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