• Cristiane d'Avila

Sábado, 11/12/1920

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


Dulphe Pinheiro Machado – Na Superintendência – Se eu estivesse no estrangeiro, meu caro Dulphe, e lesse nos jornais o telegrama do seu feito de anteontem, iria às redações desmentir a calúnia. Como estou no Rio e li os jornais, levei dois dias perplexo.

Ao que parece, não estamos em estado de sítio.

Ao que parece, não estamos em estado de guerra.

Ao que parece, todas as pessoas que compõem o governo não estão loucas.

Por consequência, os cidadãos têm alguns direitos garantidos pela Constituição.

Um deles é ser proprietário do objeto que se comprou.


Desde tempos antigos há, no mercado, vendedores de peixe que compram aos pescadores o dito peixe e o guardam nos frigoríficos quando não o vendem todo. Lendo os jornais notei a pouca prática da Confederação dos Pescadores, que precisou de uma “denúncia” para saber de uma coisa que ninguém ??? até os vendedores ambulantes guardam o seu peixe em Santa Luzia.


Mas o meu assombro não tem qualificativo quando vi que você, acompanhado de agentes e soldados, foi aos frigoríficos, retirou 15 toneladas de peixe, propriedade alheia, e entregou tudo isso para outros venderem. Você sabe a simpatia que lhe consagro e a certeza que tenho da sua cultura e comportamento de funcionário. Mas a sua obediência aos disparates de um governo alucinado fez você cometer em nome do Brasil apenas um roubo.


É do Código Penal. Pode-se citar o artigo e citar também o da Constituição. Não resta dúvida que o governo terá um processo. ou então nós estamos na Rússia Vermelha, e eu, amanhã, que comprei vários linotipos e os faço trabalhar, verei entrar Dulphe portas a dentro e distribuir a minha propriedade, inventando que eu ??? linotipos.


As 15 toneladas de peixe eram de vários vendedores. Nunca nos frigoríficos há menos dessa quantidade. Peixe toda a gente pode pescar e vender a quem quiser, e o cidadão que quiser guardá-lo arrisca-se ao prejuízo porque o mar fornece do mesmo modo desde que haja pescadores.


Mesmo em tempo de guerra, com suspensão de garantias, o ato da Superintendência seria um desastre, um crime, uma loucura impertinente capaz de fazer protestar as pedras da rua até.


No fundo, eu vou jurar, você não concorda com o ato de que foi executor.

Mas é preciso que com calma se demonstre aos cavalheiros dominados pelo delírio de querer provar a muque a utilidade da organização da pesca – que essa organização só pode dar resultados com boa vontade e sem violência.


As feiras livres falharam. Falharam porque os pescadores (pescador, salvo os da Avenida, que nem de cartola põem o pé n’água, é bicho que ama a liberdade) não podem estar dispostos a ser metidos num regime de semiescravidão, destinado a fazê-los pescar toda a vida para que os outros façam o preço sobre o seu peixe em nome dos interesses da emancipação do Brasil, da carestia e de outros argumentos idênticos.


Assaltar agora os frigoríficos para tomar o peixe dos outros é aumentar o protesto, cometer um crime, e não obter como resultado senão a raiva de vários cidadãos, um processo contra a Superintendência e o aumento do preço do peixe, porque os pescadores preferirão não pescar a ter de pertencer a colônias alfabéticas, quase colônias correcionais marítimas.


João do Rio

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