• Cristiane d'Avila

Sábado, 30/04/1921

Atualizado: Jun 14

Coluna Bilhete


Transcrição


Sr. Luiz Silveira – Na Câmara – Ontem, Sr. deputado, ao deixar a Câmara, parei à porta de um jornal que afixava um boletim sobre o “caso Maurício de Lacerda”. Mal haviam pregado a tabuleta, logo o largo se coalhou de curiosos. Um dos que primeiro lera, bradou:

– Fazem-lhe justiça. Ele vence!

E imediatamente ecoaram os gritos:

– Viva Maurício de Lacerda!

Esse quadro mostra bem o grau de tensão nervosa do público carioca pelo desfecho do sinistro drama de degolamento com que um bandozinho de espíritos tacanhos e doutores jacarandás [COB1] do jornalismo sabujo quer afastar da tribuna parlamentar o deputado eleito pelo 3º distrito do Estado do Rio, mas deputado sempre de quantos amam a independência – deputado do Brasil.

Eu vinha da alegria da Câmara ao ouvir o esplêndido parecer de Vicente Piragibe, que afastara a simpatia para julgar com rigorosa isenção de ânimo o que foi para os inimigos de Maurício de Lacerda a muralha insuperável – porque a verdade é inatacável. Eu vinha também de presenciar a sua atitude, Sr. Luiz Silveira, atitude nobre e serena, que lhe valeu o aperto de mão de um republicano impoluto e de um varão admirável: o Sr. Álvaro Baptista.

E vinha também de ver o Armando Burlamaqui, com os seus deploráveis ares de Tolentino do Piauí, ter a inconsciência de ir esboçar uma censura a V. Exa., para ter de V. Exa. uma resposta lapidar:

“Admira-me que você venha discutir um voto que é resultante da minha convicção; admira-me que você queira trazer aos que apoiam o governo do Sr. presidente da República uma opinião que é contrária às declarações do próprio Sr. presidente.”

Realmente, Sr. Luiz Silveira, graças à fúria hidrofóbica do Armando Burlamaqui, do pobre Raul Veiga (que é também contra o primo José Moraes), do facundioso [COB2] Ramiro Braga e quejandos[COB3] cavalheiros de uma politicalha transitória, o reconhecimento de Maurício de Lacerda torna-se uma questão nacional, a pedra de toque das correntes políticas.

Fechar a questão em torno do degolamento de um ilustre deputado eleito será dos que desejam fazer o Brasil político continuar a bicha amorfa das inconcebíveis injunções das Salomés de pince-nez, sem ideias, sem inteligência.

Votar pela verdade, votar por Maurício é estar com a opinião consciente da nação, é criar a grande política nova de independência e de entusiasmo, é ser brasileiro.

Por isso, peço permissão, Sr. Luiz Silveira, para nestas linhas dizer que todo o Brasil consciente repetir-lhe-á as palavras do Dr. Álvaro Baptista:

“Cumprimento-o pela sua lição de civismo.”


João do Rio


[COB1]“(...) Doutor Jacarandá, o negro alagoano que se tornou rábula (leigo com autorização para advogar) e teria inspirado Walt Disney a criar o Zé Carioca. (Coluna do Ancelmo de 29/07/15) [COB2]http://www.aulete.com.br/facundioso [COB3]http://www.aulete.com.br/quejando

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