• Cristiane d'Avila

Terça-feira, 03/05/1921

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Almirante Cabral – O dia de hoje, Excelentíssimo Sr. Almirante Pedr’Alvares, seria um dia de indiferença festiva, como a da maioria dos aniversários do descobrimento do Brasil, se nestes últimos tempos não tivéssemos à frente de alguns larvados[COB1] , certos leiloeiros de bicheiros que, enveredando pelo excesso, resolveram gritar que V. Exa. não descobriu nada, pois era uma completa cavalgadura.

Não sei se V. Exa., além de almirante, era também gênio político. O que sei é que os verdadeiros políticos, quando se sentem por baixo, escrevem ou mandam escrever artigos contra a sua própria pessoa e assim sobem na atenção geral – o que não acontece com o câmbio no governo Epitácio apesar de todos o insultarem. Com certeza V. Exa. mandou que o agredissem. Porque, imediatamente, após ser chamado de cavalgadura, Pedr’Alvares Cabral é o homem do dia, contemporâneo e vivo entre o Affonso Costa e o Antonio José em Portugal e entre o Dr. Epitácio e o general Calógeras no Brasil.

Descobriu? Não descobriu? Veio de propósito? Encontrou por acaso? Era um gênio ou uma cavalgadura? Tal êxito, depois de morto, V. Exa. só obteve no Centenário do Descobrimento. Nessa época, Pedr’Alvares era o Grande Navegador, coroado de elogios hiperbólicos no Brasil. Vinte anos depois, como nos Três Mosqueteiros, V. Exa. tem uma tremenda oposição e uma porção de defensores.

Não pode deixar de ser. A suspeita é definitiva. V. Exa. pagou a esse pessoal para fazer-lhe o reclamo histórico, para tornar contemporânea a sua ilustre e preclara figura. E depois de ter pago, Sr. Almirante, V. Exa. deve estar a rir da infinita sandice humana. Dizer que Pedr’Alvares era cavalgadura é o mesmo que proclamar a estupidez de Camões ou de Ruy Barbosa. Só fica mal quem tem a coragem vazia de dizer tais disparates. Querer demonstrar que V. Exa. não descobriu o Brasil é o mesmo que querer provar que o senador Marconi não descobriu a telegrafia sem fio e Santos Dumont não é a grande figura da navegação aérea.

Depois, queiram eles ou não, V. Exa. descobriu mesmo, nós somos, graças a V. Exa., filhos do esplêndido Portugal de 1500; e como não havia até ontem outro documento das impressões das caravelas senão a carta de Vaz Caminha – era tristíssimo ver a nossa ingratidão contra uns homens que disseram do Brasil as coisas mais amáveis e mais inteligentes...

Hoje, 421 anos após o dia em que V. Exa. pensava encontrar a terra prometida, discutem Pedr’Alvares em dois continentes, e eu não apresentaria a V. Exa. os meus respeitos, se não tivesse de comunicar ao universo um documento tão notável quanto a carta de Caminha. Esse documento é o livro de memórias do cacique Alcibidoca (o mesmo que recebeu V. Exa.), livro guardado religiosamente pelos índios e entregue há meses em Mato Grosso por uma índia apaixonada àquele farmacêutico da Missão Rondon que foi comido pelos nossos irmãos amáveis.

A primeira página que tenho em mãos, escrita em caracteres ideográficos e traduzida pelo João Ribeiro, diz assim:

“3 de maio. 379 anos antes da República. Bolmicarim acordou-nos dizendo: ‘Há poveiros na costa.’ Bem dizia eu que corríamos perigo! Vamos saber do pajé, o impertérrito Affonso-assu. O pajé ficou na ponta dos pés, fez um discurso adivinhando a glória dos que chegavam. Eu pedi o óculo de alcance e reconheci o bando.

“– Rapaziada, estamos descobertos! São os portugueses que vêm trabalhar enquanto nós vamos nos formar em direito.

“– Mas que galegos!

E corremos à praia a receber esses homens, que pareciam gostar da terra – tanto que eu lhes disse:

– Tudo está bem. Mas com uma informação. No futuro o grande Epitácio tornará clara a verdade indiscutível: o Brasil é dos brasileiros.”

Depois do livro de memórias do cacique Alcibidoca, não sei o que ainda vão dizer, excelentíssimo almirante, os jacobinos.

Veneradoramente


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/larvado

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