• Cristiane d'Avila

Domingo, 14/11/1920

Atualizado: Jun 15

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Arnolpho Azevedo – Meu caro Arnolpho: Este bilhete podia ter como título o da segunda parte dos Três Mosqueteiros. Realmente. Vinte anos depois do home-stead, e daquela camaradagem da Câmara, só vinte anos depois é que lhe escrevo e não para Lorena, onde o Machado faz oposição, mas para o Monroe, onde você resolveu fazer anteontem oposição ao Brasil.


Nós estamos todos um pouco malucos cá, muito doidos. Mas a semi-encefalite jacobina é gravíssima. Veja você o seu caso, meu caro Arnolpho. Há vinte anos o seu home-stead não pagava e você era uma inteligência adiante do meio. Hoje você quer interpretar, isto é, emendar a Constituição contra os estrangeiros e está perigosamente retrógrado, sem pensar que para um país novo ??? desastre é o cidadão que pensa atrasado.


Todos os brasileiros, os verdadeiros brasileiros patriotas, não precisam de grandes exercícios de imaginação para verificar que todos os problemas do Brasil dependem de ??? – braços! Se eu fosse governo, empregaria três quartas partes do tempo para resolver esse problema, que aliás devia ter sido atacado logo depois do Armistício.


O governo ficou com uma mentalidade zarolha, ??? agora é que se resolve inimigo dos estrangeiros, isto é, dos braços não devemos importar e localizar. Isto porque o Dr. Epitácio Pessoa na Constituinte tinha tais opiniões! Não acha esquisito?


Pelo seu projeto, integralmente contrário à nossa Magna Carta, teremos tantas dificuldades para nacionalizar um estrangeiro que só com a ameaça de ser papa, pelo menos, é que o estrangeiro ??? o título declaratório de cidadão brasileiro. Li com pasmo, e com riso mesmo, o seguinte “item”: “Provará que não manifestou intenção de conservar a sua nacionalidade.”


Como provará ele isso? Então um homem nasce na Coreia, vem para o Brasil, onde passa dez anos como coreano, certo de que é coreano, e ao cabo desse tempo tem de provar que não manifestou a intenção de se conservar coreano até um dia em que quis ser brasileiro? É delicioso de inconsequente.


Mas tudo isso, meu caro Arnolpho, é em essência o vento de xenofobia ignorante desencadeado pelo atual governo. Chama-se a isso dar caça ao estrangeiro. O seu projeto é a segunda parte da caçada, porque a primeira é a nacionalização.

Eu exemplifico.


Tome você um poveiro pescador, matriculado na Capitania, tendo todo o direito de pescar até fevereiro. Surge a lei da nacionalização da pesca, ilegal, arbitrária, executada pela violência. O poveiro naturaliza-se brasileiro logo, ou não pode pescar mais. Queimam-lhe as redes, atiram-lhe as roupas na água, fazem o diabo. O Brasil, parece, vai à guerra se os pescadores não ??? que são brasileiros.


Os poveiros foram embora em massa. Mas suponhamos que o poveiro-exemplo, com cinco anos de Brasil, dois filhos na terra, discorde em ceder às ordens ilegais – para ficar. É ingênuo. Porque aí entra Arnolpho e diz:

“Se você pensou algum dia ter sido português – não pode!”

“Se você não vive honestamente com sua mulher – não pode!”

Etc... etc...

Depois de ouvir Arnolpho, o homem compreende que o mais seguro é ir embora. E vai.

Chama-se a isso a trama hipócrita para forçar o trabalhador a não ter realmente outra saída...


Mas, meu caro Arnolpho, por que tanto esforço? Não era muito melhor um decreto mandando embora todos os estrangeiros? Ficávamos como a China, antes das missões e era lindo. Como a China, infelizmente, não. Porque a China tem ??? de milhões de braços e nós, sem o trabalho estrangeiro, ficávamos com 11 milhões só de produtores de riqueza.


Olhe ??? ??? que negoção! E deixe que não lhe dê os parabéns pelo seu projeto. O Gordo tem temperamento e físico para ??? ??? projetos retrógrados. O Arnolpho Azevedo não. A menos que o Machado não lhe tenha definitivamente azedado o cérebro com a oposição em Lorena.


João do Rio

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