• Cristiane d'Avila

Segunda-feira, 4/10/1920

Atualizado: Jun 15

O caso da agressão


Transcrição


Se pudesse haver dúvidas quanto ao que se diz da viagem do Sr. Villar pelo Norte, não fazendo apenas cumprir uma lei, mas desorganizando e perseguindo de modo violento a pesca e os portugueses; se alguém duvidasse dos excessos do temperamento desse senhor, forçando, contra a Constituição, meia dúzia de poveiros portugueses a abandonar a pesca no Rio de Janeiro – o caso de anteontem seria prova em alto-relevo da mentalidade que preside a tal campanha.


Este jornal foi fundado com ideal e entusiasmo. Antes do mais, antes de tudo, queremos o nosso país igual aos maiores. Sem pensar no Sr. Villar ou em B ou C, A Pátria pensava na Marinha Brasileira, e na sua força como necessidade do Brasil. No primeiro número de A Pátria há um artigo sobre a nossa necessária hegemonia naval. Em 18 dias de A Pátria, há pelo menos quatro artigos em defesa da Marinha, em louvor da classe.


Não há mesmo jornal algum que tivesse até hoje aparecido com uma preocupação tão viva e tão desinteressada das coisas da Marinha como A Pátria. Não há em toda a literatura contemporânea hinos mais ardentes, mais entusiásticos, mais sinceros, que aqueles traçados por mim, escritor, em louvor do esforço da nossa mocidade naval. Não há batalhador mais tranquilo, mais tenaz pela Marinha do que eu, jornalista.

A Pátria, pugilo de brasileiros, eu escritor e jornalista, temos a certeza de contar com a simpatia e a leal amizade da Marinha.


Mas o Sr. F. Villar, nas suas permanentes crises de cólera a bordo do José Bonifácio, mandava-me prevenir pelos pobres pescadores a quem defendo que um dia empastelaria este jornal, com a pretensão de me aterrorizar e sem pensar que triste prova era esse aviso. Mas o Sr. Villar, vendo-me ontem entrar num restaurante, o Sr. Villar fardado e batendo nos galões, o Sr. Villar a quem eu não conhecia pessoalmente, veio para mim de punho fechado, acompanhado de um troço de camaradas, armando um rolo e um escândalo formidáveis. Por quê?


Porque eu, como o Sr. Solidonio Leite, como o Sr. Clovis Bevilacqua, como o Brasil inteiro, acho ilegal, antipático o modo por que se expulsou do Rio de Janeiro um bando de pobres pescadores portugueses!


Porque eu, mantendo durante 15 dias uma campanha sincera, argumentava tratando sempre o próprio Sr. Villar com as palavras mais corretas, pois ainda no número de anteontem, no número em que se fazia um hino à Marinha, chamava esse oficial de distinto!


Que queria o Sr. F. Villar? Armar o escândalo, aterrorizar? Mas aqui, no Rio de Janeiro, capital do Brasil, porque um jornal discorda da execução violenta, anárquica, antipática de uma lei, o executor dela farda-se com uma farda de tradições gloriosas e vem para a rua querer atacar a braço o jornalista que com ele não concorda?


Eu assisti anteontem à cena com indiferença quanto à pessoa do Sr. Villar. Tanto me faz que esse homem seja contra ou a meu favor, porque eu defendo princípios e ideias e ninguém, absolutamente ninguém conseguiu jamais fazer-me recuar quando eu sei que estou com a razão, o direito e a justiça. Mas é preciso dizer que a cena me afligiu no ponto de vista nacional brasileiro.


O Sr. Villar, que anda a bordo de um navio estrafegando a vida de pobres poveiros, mostrou ontem um aspecto que deve ecoar dolorosamente. O cidadão que o Sr. Villar, trepado numa das mesas da Brahma, em meeting, queria fazer linchar como mau brasileiro é apenas um homem descendente de uma das mais ilustres famílias brasileiras, a quem o Brasil deve a sua fronteira sul; o cidadão que o Sr. Villar pretende aterrorizar é um indivíduo que os países estrangeiros condecoram com as honras de embaixador da sua pátria; o homem a quem o Sr. Villar pretendeu estender a fúria exercida contra os poveiros tem vinte anos de trabalho tenaz e centenas de milhares de leitores em todo o Brasil, que nele leem o amor ao Brasil, o entusiasmo pelo Brasil e o respeito às liberdades.


Anteontem, na Brahma, esse homem – que sou eu, e a quem nem mil Villares podem retirar o que ele conquistou pelo próprio mérito – sentiu dor por ver que, numa capital civilizada, um oficial fardado, sem ter sido ofendido, se precipita em agressão a uma pessoa de destaque, só porque ela não é da sua opinião, num jornal polido e educado!

Nem na Libéria veríamos uma cena destas. E dizemos na Libéria porque o Pará já assistiu ao que ontem assistiu o Rio, praticado pelo Sr. Villar.

***

Na discussão do caso dos poveiros, está bem de ver que o Sr. F. Villar foi mal aconselhado, se pensou que fazendo uma demonstração de muque e de meeting nos faria calar a boca. Nós continuamos como estávamos. Apenas de modo um pouco mais direto contra a jacobinada que, endeusando o Sr. Villar, o levou aos seus excessos.


E, sem o menor abalo quanto a ameaças de empastelamento de A Pátria e de ataques a mim, deixamos os fatos em mãos do chefe da Armada, Sr. Almirante Frontin, para que ele possa agir como julgar do seu dever, e entregamos à Marinha Brasileira a história espantosa deste caso: o escritor brasileiro que mais tem louvado a Marinha jovem, o jornalista que no seu jornal quase diariamente se bate pela Marinha Brasileira, atacado nos restaurantes por um grupo de oficiais, exclusivamente porque não é da opinião que na nacionalização da pesca se force violentamente pobres pescadores portugueses a naturalização, quando se fazem professores de pesca os japoneses.


Quanto à minha conduta pessoal, o Sr. Villar e o seu grupo jacobino ficam sabendo que eu continuo – com a calma que Deus me deu, a tenacidade do meu sangue e a inteligência que nenhum deles pode negar-me.


João do Rio

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