• Cristiane d'Avila

Domingo, 24/10/1920

Atualizado: Jun 15

Coluna Bilhete


Transcrição


Ministro Azevedo Marques. – Mal acabava, Excelência, de conversar com aquele bichão do Pio Dutra, um dos cavalheiros que mais entende (sic) de protocolo e de pesca e que V. Exa. confundiu outro dia com o ministro da Cochinchina, quando encontrei o bacharel Alcebiades, candidato a contínuo da Secretaria das Relações Exteriores.


O bacharel, caríssimo Artista (e permita V. Exa. chamá-lo assim porque V. Exa. como Paderewsky [COB1] toca piano), estava hesitante entre as escolas de pesca da Ilha do Governador e as salas da Rua Larga, reformadas pelo gosto de Rio Branco e estragadas pela abstração de V. Exa. A pesca de Dutra exige que os pescadores saibam uma porção de coisas que se lê nos livros, que nenhum pescador do mundo aprende em livro e que nem V. Exa. sabe, nem eu, nem os jacobinos oceânicos e muito menos o nosso interessante Pio.


Ora, Alcebiades não quer aprender pesca lendo tratados de álgebra, a teoria das marés, e outras coisas nas praias formosas da Ilha do Governador (do outro, do que já tinha existido quando veio a governar a cidade e a ilha o Dr. Carlos Sampaio ??? consequência ser contínuo. Será bacharel contínuo em ???. Mas mesmo para contínuo há um concurso de que V. Exa. é o examinador e Alcebiades treme.


Claro que Alcebiades foi tomar informações com o Salvador, Chefe Geral par droit de conquête[COB2] , o homem do Barão. Salvador escusou-se. É diplomata, há muito tempo. Recorreu ao Antonio, simples e modesto, assutado com o caso de ocupar um lugar em que se entra por concurso. Os outros ficaram como o Antonio; e, como não há chefe de protocolo, lembraram que Alcebiades perguntasse ao Dr. Fonseca, que de certo saberia das bases do concurso. Mas o meu bacharel teve medo e continuou nesse estado vertiginoso a tal ponto que veio apelar para um empenho forte junto a mim!


Perdoará V. Exa. que eu me interesse por esse candidato à vaga do pobre Romeu, tão humilde, tão modesto que quase nasceu no Itamaraty para morrer lá, sem concurso, de uma bomba da polícia do espantoso Geminiano?


Se a coisa não for difícil, o rapaz com algum esforço procurará sair-se bem. Mas V. Exa. vai examinar. E daí a “dolorosa interrogação”, como dizia o notável Bulhões Carvalho nos papeizinhos amáveis e cômicos do recenseamento. Que perguntará V. Exa.? De que constará o exame? Será V. Exa. só, em exame prático ou constituirá a mesa examinadora com os seus excelentíssimos oficiais de gabinete? O contínuo terá de falar francês, correr com pressa pelos corredores, fazer esperar os maçadores [COB3] ou indicará aos visitantes o vosso protocolo, em que o uso do colete é obrigatório?


V. Exa. é um homem prodigioso, V. Exa., se para as questões internacionais deixa de ser a grande equatorial (a velha do velho Observatório do velho Castello), em compensação nas questões como a dos contínuos é um microscópio – vê o infinitamente pequeno. Eu imagino o exame!

– Alcebiades, como falará você ao senhor Dr. Briggs quando ele não tiver chegado?

– Pelo telefone, Excelência.

– Sabe ao que vem o encarregado da Bolívia?

– Vem à recepção diplomática...

E V. Exa., caindo de chofre na realidade:

– Bolas! E o Rodrigo Octavio que não está!

V. Exa. é sempre o encantador professor. Peço-lhe pois que revele ao meu candidato os erros das três provas. Ele será pelo menos uma prova limpa de admiração pelo talento musical de V. Exa. de quem é fervoroso apreciador este de V. Exa. atento.

João do Rio

[COB1]https://pt.wikipedia.org/wiki/Ignacy_Jan_Paderewski

[COB2]“Por direito de conquista”. http://www.priberam.pt/DLPO/et+par+droit+de+conqu%C3%AAte+et+par+droit+de+naince

[COB3]http://www.aulete.com.br/ma%C3%A7ador

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