• Cristiane d'Avila

Segunda-feira, 18/10/1920

Atualizado: Jun 15

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Pedr’ Alvares – Como você é de bronze no Largo da Glória talvez ainda não saiba de uma grande novidade. Meia dúzia de presidentes e chefes de grupos que não existem senão no papel mandaram saudar o Rei de Espanha porque o velho discípulo dos armadores portugueses, comandante Cristóvão Colombo, descobriu o Brasil.


Esta imprevista novidade de certo não o abalaria na época das descobertas. Agora, porém, tenho a certeza de que é, como descoberta, a maior que lhe contaram. O comandante Pedr’ Alvares Cabral, não sabe de uma certa nação chamada Alemanha com o delírio do império do mundo e de raça eleita, levando seu orgulho a fazer-se proprietária de todos ou quase todos os gênios de outras terras. Assim, Dante e Tasso ficaram alemães. Muita gente riu dessa megalomania patriótica. Eu não.


Eu, detestando cordialmente a Alemanha, acho que o seu patriotismo deve ser imitado. Nós, porém, no Brasil, temos agora uma crise de patriotismo inverso. Queremos ser de toda gente, menos de nós mesmos – patrioticamente.

Assim, só assim se pode explicar o caso da destituição do nobre comandante de uma situação histórica que parecia definitiva e é a do Pai do Brasil. Imagine o comandante um grupo de cidadãos na América do Norte de nome Harrison, Daves, etc. que negassem com fúria serem filhos de ingleses e da raça anglo-saxônia[COB1] . É o caso de um grupo de brasileiros que são Santos, Cabral, Almeida, Nogueira, e que acreditam serem mais brasileiros quando negam o trabalho dos seus avós e, sendo deles em linha reta descendentes, proclamam que a colonização portuguesa foi feita por degredados.


Essa calúnia, parece-me, recai inteira nos próprios brasileiros, além de ser uma mentira desvairada. Não se admire, pois, comandante, de lhe negarem agora a honra insigne que Deus lhe deu: a do descobrimento da terra de maravilhas e de surpresas.

Este bilhete, porém, comandante, é-lhe dirigido para uma consulta ao seu bom senso, que de certo sorri de tudo isso. A consulta é a seguinte: não acha o comandante que o telegrama ao Rei de Espanha devia ser dirigido ao Rei de Itália? Porque, se Colombo estudou em Portugal e teve três barcos da Espanha para descobrir o Caminho das Índias, obtendo aliás como paga dessa façanha ser insultado e posto a ferros, Colombo, como Vespúcio, que deu o seu modesto nome ao Mundo Novo era italiano, absolutamente italiano de Gênova.


Afonso XIII, como Vittorio Emmanuel, como Antonio José d’Almeida, não tem culpa alguma de que Pedr’ Alvares, depois de descobrir o Brasil, seja substituído por Colombo. Mas desde que querem felicitar Colombo, para fazê-lo Pai dos Brasileiros, a Espanha mesmo agora não tem nada com o peixe. É, pela lógica, ao governo da Itália que se deve louvar por Colombo.


Esperando a sua resposta, sou do comandante um admirador cheio de urgência. Porque, se o comandante não responde com brevidade, talvez fique provado o fatal périplo dos japoneses no ano mil, muito antes dos portugueses lá terem ido, e teremos o desprazer de ver também Colombo destituído da interinidade no papel de descobridor do Brasil, para que siga o telegrama ao Mikado[COB2] pela glória de terem os filhos do sol nascente feito os nossos índios, depois de terem sido os primeiros a ver a América.


João do Rio.


[COB1]http://www.priberam.pt/dlpo/anglo-sax%C3%B4nio

[COB2]Termo datado que designa o imperador do Japão e significa “porta sublime”. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Imperador_do_Jap%C3%A3o


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