• Cristiane d'Avila

Quinta-feira, 09/12/1920

Atualizado: Jun 15

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Tolentino – Em Petrópolis – Conheço uma porção de gente importante no Rio. Importante, não importante e que finge de importante sem-no ser. É por consequência especial para mim haver no Estado do Rio um cidadão importante, há uma porção de tempo, de que toda a gente me fala dizendo-o um talento e que eu não conheço nem de vista.


Confesso esse desastre da minha vida de modesto repórter da genialidade parlamentar, viveiro donde saem os chefes do executivo. E confesso para desculpar-me de lhe escrever um bilhete sem o conhecer.


O bilhete pergunta-lhe apenas: “Era necessária à política fluminense uma encenação de tanto efeito a respeito de sua representação na Câmara?” O caso da representação do Estado do Rio interessa agora a todos os brasileiros e a todo o Brasil, não por ??? partidárias, lutas de competições, essa coisinha de politicagem que é a perene brotoeja do Brasil. O caso da representação fluminense interessa apenas pelo seguinte:


O Sr. Epitácio Pessoa quer alijar da Câmara o Sr. Maurício de Lacerda e o país inteiro considera o Sr. Maurício de Lacerda um homem cheio de serviços a todas as causas generosas, assim como o seu Estado e o seu município se devem ufanar de mandá-lo à Câmara.


O Sr. Epitácio Pessoa é impertinentinho enquanto percebe que estão com o desejo de contemporizar com o poder de que se serve para empregar a família e testar o prejuízo dos adversários leais. Não sei, Sr. Tolentino, qual exatamente a sua autoridade no seio do partido. Deve ser grande, pelo tom das suas declarações. Diplomaticamente como rapapé ao Dr. Epitácio, acho excessiva. Vosselência estabelece no cenário a pespectiva larga. Primeiro decapita-se. Rolando a sua cabeça no primeiro plano, logo depois, no segundo, vosselência corta a carótida do Macedo Soares. É muita morte de brincadeira – para o caso do último plano, o que interessa, o do Sr. Maurício de Lacerda. E como consequência disso tudo (vosselência de certo não reparou) organiza um sacrifício tão sensacional do Sr. Maurício de Lacerda que fatalmente esse sacrifício virará apoteose.


Porque todas as vistas convergirão para o Sr. Maurício. Porque toda a gente perguntará por que um Estado com a mentalidade do fluminense arranja como pretexto do corte a opinião desengonçada e retrógrada contra a expressão mental de um seu ilustre representante que não prejudicou jamais o partido. Porque toda a gente se revoltará ao saber que o Estado do Rio corta o Sr. Maurício em atenção ao Sr. Epitácio só porque o Sr. Maurício é o único na bancada a não dar o apoio incondicional que para o ano ninguém mais dará ao Presidente.


O resultado do traçado diplomático exposto por vosselência vai ser inteiramente contrário ao que pensa o partido. O Sr. Maurício é alvo das estrondosas manifestações de todas as classes do Brasil, o Sr. Maurício pode ser eleito por qualquer município do Brasil onde haja um eleitorado patriota, e vem mesmo para a Câmara eleito por Vassouras, que tem nele orgulho, porque ele é representante do povo de verdade.

Daí ter a ousadia de perguntar-lhe ou, após o seu manifesto, se não foi talvez excessiva e precipitada a encenação da tríplice decapitação – para levar num prato de prata a cabeça de S. Maurício a Herodes Antipas.

Refletidamente

João do Rio

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