• Cristiane d'Avila

Domingo, 08/05/1921

Coluna Bilhete


Transcrição


A X., na Câmara. – Meu velho. Vim meditando alegremente na tua derradeira opinião de reconhecido recém-deputado. A tua opinião é o cartaz do teu caráter. Já mudaste vária vez e ontem, depois de em segredo desancar o Epitácio, tu falaste que era preciso votar contra o Nicanor, contra o Maurício, porque o dito Epitácio, segundo o Burlamaqui, faz questão de honra em que os outros degolem homens eleitos e aclamados pelo Povo.

Com pouca reflexão, diante da miséria de sujeitos como você, meu velho X, um cidadão culparia X. Eu vejo a lamentável situação do caráter nacional que permite como órgãos da opinião o Dr. Jacarandá amarelo e outros gajos com alma de lacaios pernósticos. Estamos na época das acomodações sem convicção. Corremos uma fita policial de enredo infindável, em que os golpes são de surpresa e os que levantam as mãos para o ar com medo do revólver; estão prestes a saltar às goelas do homem armado, ao seu primeiro descuido.

No caso das duas escandalosas depurações, em que você, X, deputado síntese, varia de opinião vinte e quatro vezes ao dia, o curioso é a morna e lúgubre sornice[COB1] .

Você finge acreditar que é preciso matar o Nicanor e o Maurício. Ora. Você, por mais idiota, por mais Burlamaqui que seja, há de convir que Maurício e Nicanor fora da Câmara são tão perigosos para Epitácio como lá dentro. Mais – porque o povo está do lado daqueles que são porcamente sacrificados.

E ao de mais, velho X, você conhece Epitácio, que trata todos os deputados como criados de quarto, você sabe que esses homens vão suportando isso até passar o medo do rebanho: e que no fim do terceiro mês da Câmara será minoria a maioria que tiver agora a indignidade de sacrificar Maurício e Nicanor ao Herodes da Paraíba.

De modo que o seu papel, X, é duplamente desfibrado, como diz o “novidades” Calamare repetindo a literatura espermacética do Dr. Pessoa tio, pois você não é sincero nem contra os dois valorosos deputados nem a favor do dito e ferocíssimo Herodes.

Tudo é porém possível.

Nós pensávamos que Epitácio pudesse refletir. O seu temperamento bilioso enevoa-lhe tanto o cérebro que o presidente (comendador de todas as ordens da Europa) não vê a inutilidade do seu trabalho em querer depurar os seus contendores.

Muito bonito seria que ele não interviesse, ou pelo menos mantivesse a aparência, de não querer mandar no Legislativo. Ele quer porém ostensivamente, brutalmente. A Câmara, isto é você, pode ficar tonta e obedecer a essa pressão primeira. Há entretanto no Monroe os que resistem, os que votarão quand-même [COB2] com a verdade. E quando os outros virem que a reeleição será sob outro presidente, que virtualmente Epitácio, esbravejando ou fazendo alusões caluniosas em discursos ou mensagens em estilo de jornalista da roça, pode desenvolver as “resoluções” do Pires do Rio até 1922 mas não vale em política mais de quatro ou cinco meses, o cenário muda e os jornais terão de relatar dia a dia a formação na Câmara da unanimidade da oposição.

Assim, velho X, espero-o na curva, se você na reta inicial não tornar a pensar e não acabar votando pelo reconhecimento dos dois deputados, que Herodes faz questão de ver degolados. Como, apesar de tudo nem sempre a reta deixa de ter perigos, aconselho-o a estar atento e a ouvir o aviso do condutor do bonde parlamentar, quando este gritar: “Olha o andaime à direita!”

Você, pelo amor de Deus, X, não vá olhar como ele manda. Salve-se. Tenha a prudência de recolher a cara. Por que muitos não recolhem e levam o tranco.


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/sornice [COB2]Apesar de tudo

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