• Cristiane d'Avila

Quarta-feira, 26/01/1921

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


Ao barco Ossineke [COB1] – Ora, você apareceu justamente no bom momento. Apesar da sua guarnição ser quase toda brasileira, como com justa alegria consignaram todos os jornais, meu excelente barco yankee, é de prever a sua ignorância de um caso muito importante: há um ano perseguem os portugueses pescadores, dizendo que se eles não se nacionalizarem corre perigo o Brasil. E os mais extremados, falseando textos e mentindo, vão a exigir a nacionalização da marinha mercante também – nacionalização como eles entendem, isto é, só admitindo brasileiros natos ou naturalizados.


Há uma porção de tempo com paciência venho dizendo aos matóides e ao presidente que os anima o crime contra o Brasil que essa atitude representa. Mesmo pondo de parte a questão moral, que é a súbita violência contra irmãos nossos como os portugueses que não tinham procedido senão bem entre nós – eu dizia:

1º – que a interpretação da nacionalização da pesca era um disparate sectário de jacobinismo;

2º – que nós não podemos ter as opiniões dos velhos países da Europa e sim o nosso patriotismo de grande potência do novo continente – por consequência o da absorção de maior número de braços;

3º – que em nenhum país do mundo se compreende por nacionalização da pesca ou da marinha mercante a nacionalização total das equipagens;

4º – que essa jacobinada idiota dá do Brasil não o aspecto dos patriotas da “Action Française”, mas de nação com receio de inimigos, quando é exatamente o contrário, desde que o Brasil tem a força de absorver as correntes imigratórias.


Como os Estados Unidos estão na moda, e como não se pode negar ao povo dessa grande potência patriotismo, amor ao progresso, desejo imperial de domínio, costas como as do Brasil e inteligência para prever os perigos – atrevi-me a dar o exemplos dos Estados Unidos.


Pois, meu caro barco norte-americano, não há bigorrilha jacobino que não me tenha insultado por aí, e declarado um cidadão mentiroso, inimigo do Brasil. E os palermas maus estão por aí dizendo o seu nacionalismo, quando chega você, barco norte-americano, com os brasileiros, que não se naturalizaram, que dizem aos repórteres: o casco é yankee mas vibra aqui a alma brasileira! Tudo isso, sem que os Estados Unidos obrigassem os brasileiros a se dizerem yankees, sem que os americanos recusassem trabalho aos brasileiros dignos sem prévia carta de mudança de pátria, sem que na América do Norte os patriotas corressem ao Wilson porque estavam ganhando honradamente a sua vida na marinha mercante norte-americana – os brasileiros, o que não ganhariam na nossa, graças aos miseráveis ordenados e à falta de garantias do Henrique Lage, à desorganização do Lloyd, etc., etc.!

E nenhum idiota pediu a nacionalização dos brasileiros alegando o perigo deles ficarem conhecendo as costas dos Estados Unidos!


Que lição é você, ó Ossineke, mesmo na semana em que os nacionalistas foram falar ao Dr. Epitácio para expelir em massa os estrangeiros dos barcos brasileiros, da pesca, do mar brasileiro. Que exemplo é você com a sua guarnição em maioria composta de alegres e decididos trabalhadores brasileiros.


Eu fico humilhado desde que vejo qualquer país ??? melhor que o meu. Mas, humilhado tenho de saudar esse barco-lição que é você, ó Ossineke, barco bem norte-americano, bem expressão da força, da convicção em si mesmo, do acolhimento ao trabalho que é a Norte-América!


Nós fomos assim. O Sr. Epitácio e o Sr. Affonso Celso apadroaram os que nos querem fazer retrogradar. Esperemos que os jacobinos expliquem a você, Ossineke, e mantenham as suas opiniões.

Com admiração


João do Rio


[COB1]Este é o nome correto, com “e” no final.

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