• Cristiane d'Avila

Quarta- feira, 04/05/1921

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Epitácio Pessoa. – No Catete – Este jornal, Sr. Epitácio, colocou ontem perfeitamente bem a necessidade em que se acha o presidente do Brasil de explicar os insultos no ar, as calúnias vagas, as agressões virulentas do seu meeting da Praia Formosa.

Nós sabemos, Sr. Pessoa, os seus processos de oposição: para Epitácio até Floriano Peixoto foi ladrão. Nós sabemos a sua impertinentíssima intolerância de bilioso da roça, quando está no poder: basta lembrar o régulo [COB1] atrasado que mandou invadir a Escola Politécnica à pata de cavalo. Mas o Sr. Epitácio da Silva Pessoa, o carrança[COB2] pernóstico, o demagogo contra a oposição não nos interessaria e não nos interessa senão pela responsabilidade que deve ter o presidente da República das atitudes de mata-mouros [COB3] verbal do dito Sr. Epitácio.

O Brasil pode tolerar um presidente que confessa não entender de finanças.

O Brasil pode ter um presidente que para satisfazer ódios pessoais arrasta uma câmara de criados de quarto a depurar deputados estrondosamente eleitos como Nicanor do Nascimento e Maurício de Lacerda.

O Brasil pode estar resignado a ser governado por um megalomaníaco em perpétua crise que leva o país à desgraça só porque não quer concordar nas emendas trazidas pela fiscalização dos jornais independentes.

O Brasil pode aguentar firme o extravagante nacionalismo de um chefe de nação que dá a estrangeiros polpudos contratos, encampações gordas e se reserva em cólera contra os portugueses, satisfazendo e animando assim a sanha de patriotas cutubas[COB4] , como o Delamare da Transoceânica.

Mas o que parece demasiado é o Sr. Epitácio, falando como chefe da nação, vir para o barracão da Praia Formosa, discursar num meeting arranjado pelos jacobinos, dizer entre banalidades de retórico da roça inverdades e calúnias.

Este jornal apresentava ontem ao presidente da República algumas perguntas. As respostas do supremo magistrado confirmarão ou desmentirão o Sr. Epitácio Pessoa, que não pode e não tem o direito de acusar sem provar.

O senhor disse que há estrangeiros montando jornais para atacar o Sr. Epitácio.

É preciso provar.

O senhor disse que há brasileiros assalariados por estrangeiros para fazer mal ao Brasil em jornais.

É preciso indicar qual o brasileiro assalariado e provar. Provar – porque todos os jornalistas brasileiros que não concordam com o seu governo estão sob o cutelo de papelão desse ataque de Chandoreille [COB5] do Paul de Kock[COB6] .

O senhor disse que os estrangeiros julgam o Brasil propriedade sua e agem como tal.

É preciso provar quais são eles para que os brasileiros corem não só de os tolerar como de um presidente que faz meetings em vez de mandar castigá-los, e que vai contra uma colônia inteira sem explicar as causas dos seus ódios.

A impertinência e a falta de critério do senhor como presidente chega com pretensão (a pretensão do fraque preto com botas amarelas) de insistir na sua mensagem verrina [COB7] dizendo dos jornais: “A noção que tenho dos meus deveres não me permite assalariar jornais para tê-los ao serviço incondicional da administração.”

Todos receberão tal período de boa cara?

Eu sinto muito. Mas não posso admitir de um chefe de Estado arreganhos meetingueiros insultando os jornais que não o aplaudem. E por isso, enquanto o Sr. Epitácio não provar o que disse no meeting e corroborou na catilinária mensagem, este jornal será forçado a pedir-lhe diariamente as provas contra os jornais que pediram dinheiro ao Catão do Catete.


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/r%C3%A9gulo [COB2]http://www.aulete.com.br/carran%C3%A7a [COB3]http://www.aulete.com.br/mata-mouros [COB4]http://www.aulete.com.br/cutuba [COB5]Personagem do romance “Le barbier de Paris”

[COB6]https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_de_Kock [COB7]http://www.aulete.com.br/verrina

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