• Cristiane d'Avila

Quarta-feira, 06/04/1921

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


A X. amigo de Z – Não há nada mais aborrecido do que falar de si mesmo. Mas em cem casos de autorreferência, 99 são levados a ela pela má vontade, pela inveja, ou simplesmente pela estupidez alheias. A má vontade, a rivalidade, a inveja, o ódio não irritam... Pelo menos a mim. Mas a estupidez é desequilibrante.


Toda gente sabe que eu tenho inimigos. Os meus “inimigos” são meia dúzia de sujeitinhos medíocres que há vinte anos repetem que eu sou careca, barrigudo, invertido e vendido. É uma fúria sistemática e monocórdia que irrompe a propósito de tudo e de coisa nenhuma. Eu publico um livro, que é um dos raros belos livros destes dez últimos anos, por exemplo. O livro não prejudica a ninguém. Abro um jornal. Aí se diz que eu sou barrigudo, calvo, invertido e vendido a propósito do livro que se qualifica de sem-vergonha. Eu vou a São Paulo comprar umas máquinas. Tome a repetição dos mesmos desaforos. Eu penso que aquele transeunte é alto. Lá vem a saraivada. Imperturbavelmente, quando é impossível negar a verdade, os malandros regougam[COB1] .


“Ele diz certo, mas é mentira. Não pensa assim, porque é artificial.”

Alguns camaradas admiram-se que eu resista à avalanche diária. Eu devo dizer que não teria enchido vinte anos de um labor cheio de fulgor, não teria escrito trinta volumes, se não fosse o desejo de reação contra a canalha. Porque é pelo trabalho e pela sinceridade que eu tenho a opinião favorável de um grande crítico que eles não têm: o público.


Ainda agora, com a vida deste jornal, os palermas maus demonstraram a sua insuficiência imaginativa. A Pátria foi dos portugueses, com o dinheiro da colônia, quando há vinte anos a minha opinião a respeito de portugueses tem sido sempre a mesma. A Pátria foi dos italianos – da Banca de Sconto.[COB2] E segundo algumas cartas anônimas é dos africanistas!


Era tão mais simples ver a verdade: A Pátria, jornal de um brasileiro que nela tem o seu dinheiro e que nela combate o bom combate pela sua grandeza! Mas qual! Eu ainda hei de ler que A Pátria é dos chineses contra os japoneses...

E achando isso assaz divertido.


Apenas nestas misérias humanas o que me causa um pasmo desconcertante é a estupidez de certas criaturas que não me conhecem, nunca me leram, jamais tiveram o menor interesse contrariado por opiniões minhas, e que de repente saltam ao desaforo, repetindo as coisas que os concorrentes, à míngua de recursos, vociferavam.

Ainda outro dia mostraram-me uma entrevista ou coisa que o valha de um médico naval. O homem repete que eu sou a “manta de toucinho com dois olhos”.


O sujeito que disse tal coisa a primeira vez devia estar bêbedo, pelo menos. Mesmo que não o estivesse, não me ofenderia – porque não ofende quem quer mas quem pode. Depois ainda não banquei o Narciso e pouco se me dá que me comparem a Apolo ou a uma capivara. Mas em nome da inteligência, soubesse eu quem pôs a frase em circulação e pediria para emendá-la. Não conheço cozinheira desconhecedora de que não há mantas de toucinho. Manta só de carne-seca. Ou o meu elevado adversário chama-me de manta de carne com dois olhos ou de jacá [COB3] de toucinho. Manta de toucinho é que é tolice.


O médico, achando a piada gostosa, não viu o disparate. Daí estas linhas a você para insinuar-lhe que, quando publicar as baboseiras em segunda edição corrija a coisa. Você é amigo do homem. Ele acreditará. E talvez acredite também numa verdade: na minha grande pena quando vejo cavalheiros maus inutilmente, parvamente.

De você


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/regougar [COB2]Instituição de crédito italiana. [COB3]http://www.aulete.com.br/jac%C3%A1

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