• Cristiane d'Avila

Sexta-feira, 13/05/1921

Atualizado: Jun 17

Coluna Bilhete


Transcrição


Ao Povo Carioca. Nesta – Você viu ontem o que se fez com Maurício de Lacerda. Maurício venceu, pois é vencer ver contra si, rugindo de medo, o governo atrabiliário[COB1] , feroz e incompetente que infelicita este país, dando ao povo a medida do rancor do grotesco quinquagenário odiento, que não perdoa o ataque a sua ignorância espermacética, e para golpear os inimigos leais conta com uma Câmara de lamentáveis escravos.


Mas você viu ontem o que se fez com Maurício de Lacerda...


Que pensa você do espetáculo de ontem, povo miserando a que os governos nem satisfação dão – povo que apenas serve para suar, trabalhar, pagar impostos, sustentar o luxo patife dessa horda de negocistas que nos infelicita com o título de “políticos”? Não discutamos o caso governo, o caso Epitáfio. Ele é aquele homenzinho de botas amarelas e fraque preto, pretensioso, autoritário, com a vontade de ser obedecido sem réplica.


Em torno, os Burlamaqui, gente sem valor que precisa de alguém para galgar posições, em torno os Burlamaquis tornam o ambiente ainda mais irrespirável, e o homenzinho ainda mais petulante. Claro que Epitáfio não pensa no povo. Tudo quanto tem feito no governo é propositalmente contra o povo, contra todas as classes que formam o povo: contra o proletário, contra o comércio, contra a indústria, contra os desgraçados que são os modestos funcionários públicos.


O povo não pode nem protestar, nem fazer um comício. Como me escrevia um homem do povo: “Estejamos certos e convencidos, à primeira oportunidade estará na rua a procissão, que há tanto tempo e com tanto carinho nos prepara a empertigada pessoa que impera no Brasil. “A cada lamentação mais angustiosa da fome, duas ou três dúzias de metralhadoras entram, desarmadas e encaixotadas (já se vê, que a surpresa é todo o encanto das festas oferecidas ao público) para o quartel da imponente guarda pretoriana. “Ao receber qualquer pedido ou reclamo do comércio ou da indústria, exaustos e moribundos, Nero decreta a aquisição de mais um ou dois tanques blindados, no intuito de dar mais brilho à futura procissão. Se o café esfria, a borracha estica ou o açúcar azeda, adquirem-se rifles e gases asfixiantes e tudo irá pelo melhor.”


Esse homem, considerado na Europa, o Epitáfio Brasileiro, não pode fazer menos do que faz. Era da sua moléstia: é o delírio autoritário e a consequente incapacidade de compreender o quanto a violência traz violências.


Mas a Câmara, a dos pseudo-representantes do Povo, a Câmara descer logo no começo à inominável baixeza do voto contra Maurício! Que diz você, povo carioca, desse miserável pulhismo? Do Estácio que depois de velho deu para moleque de recados como o Burlamaqui? Do Arthur Lemos, companheiro de escritório do “Pingô” malandro, que foi ressuscitado com aquele ar de cozinheiro do Café da Paz para guisar mais uma vez ignomínias como o seu parecer sobre o Nicanor? Que diz você desse ajuntamento imoral em que, sem necessidade alguma, os sujeitos lambem os pés do Epitáfio e em seguida viram o traseiro para sentirem a botininha amarela do energumenozinho da Paraíba no lugar conveniente?


Ontem, você viu, ó povo amigo, o que se fez com Maurício de Lacerda, cujo socialismo a cabeça de abacate com açúcar preto que dá pelo nome de Raul Veiga, o Engrossador, achava pernicioso ao governo do Estado do Rio!


Você é, porém, no fim o grande prejudicado. Como sempre. Enquanto você não punir pelos seus direitos, diretamente. E eu só lhe escrevo para mostrar o começo do ano de Epitáfio: obrigando uma Câmara de eunucos a cortar da representação nacional um dos raros deputados eleitos o deputado de todo o povo do Brasil.

Veja você isso e prepare-se para o chicote nas ruas...


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/atrabili%C3%A1rio

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