• Cristiane d'Avila

Sexta-feira, 15/04/1921

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


Dr. Polydoro – Nesta – Meu caro professor. Na palestra que outro dia tivemos a propósito de nacionalismo e jacobinismo, Vosmecê, cheio de pasmo, acentuava a crise larvada [COB1] do jacobinismo, indagando por que esse grupo se desarticulou atacando exclusivamente portugueses. Para mostrar-lhe como vivem as colônias endeusadas por tais cavalheiros, repeti-lhe o caso do americano num hotel de Santa Teresa, onde viveu dois anos com a esposa e um lindo baby, que era o encanto de todos os hóspedes. Ao cabo desse tempo, Mrs. X e o petiz foram passear à terra natal e os hóspedes sabiam pelo pai das novas do pequeno.


Um dia, distinta senhora brasileira, à hora do jantar, viu aproximar-se o americano.

– Estou muito contente!

– Seu lindo filho?

– Recebi carta. É bem meu filho. Estou contente!

– Que fez ele?

– Minha mulher escreve dizendo que ele felizmente já não sabe uma palavra de português!


A senhora brasileira sorriu, mas nunca mais perguntou pelo pequeno. Ela ficou sabendo como os americanos entram em fusão na sociedade brasileira. Outros poderiam dar exemplos típicos dos estrangeiros de outras colônias, que se isolam, estão aqui para sugar e conosco não têm o menor contato – ao passo que o português é de casa, faz parte da família.


Há, porém, um aspecto desses estrangeiros hostis e sugadores que cada vez mais se acentua: o de escorraçar das empresas o brasileiro sempre que lhes é possível. No contrato, para aquela voragem [COB2] denominada “obras contra a seca”, os contratantes abriram margem pra poder empregar os trabalhadores que quiserem. Nas construções de estradas de ferro pelos estados do Norte, essa hostilidade aparece a cada passo.


Ainda agora, ilustre Dr. Polydoro, leio um telegrama da Bahia, que tenho a liberdade de lhe enviar. Diz o despacho:

“Causa sensação a campanha ??? na imprensa contra a Chemins de Fer, pelo fato de estar substituindo os empregados brasileiros por franceses, agora vindos da Europa.

“Sucessivamente, mais de 50 brasileiros foram despedidos, sendo admitidos outros tantos franceses, até moças datilógrafas.”


Os jacobinos escrevem jornais inteiros e fazem meetings contra os portugueses, inventando até o ódio português contra brasileiros. Isso sem um fato só comprobativo. Mas nenhum deles é patriota e tem palavras de reprovação para os casos como este da Bahia.


Que sentimento de pátria tem tal gente!

Em todo o caso, professor, a campanha desastrosa em que se empenharam é tão malfeita que os mais cegos podem ver por esses exemplos a sua sinceridade, que não passa de insultar portugueses e os brasileiros que não concordam com eles.


João do Rio


[COB1]http://www.aulete.com.br/larvado [COB2]http://www.aulete.com.br/voragem

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