• Cristiane d'Avila

Sexta-feira, 04/02/1921

Atualizado: Jun 16

Coluna Bilhete


Transcrição


Ao Dr. Fiscal dos Bancos – Realmente, meu caro amigo, sabendo o seu alevantado sentimento patriótico tão em desacordo com as impagáveis medidas da integral e peróbica ignorância jacobina do Dr. Homero Baptista, é que a você me dirijo para comentar aquela obrigatoriedade dos bancos terem um terço de empregados brasileiros.


O meu eminente amigo e grande brasileiro Nilo Peçanha tinha por costume dizer que no Brasil metade da população é financeira e a outra metade entende de finanças mais que os Leroy[COB1] .


Frequentando os bancos, há muitos anos, bancos estrangeiros, notei que podia ser aplicada a ironia para uma vocação brasileira, porque se havia ramo de atividade em que encontrava brasileiros era justamente nos bancos. Não se pensava em nacionalismo, o Sr. Affonso Celso não inventara a “brasilidade”, meia dúzia de inconscientes, sob a proteção do presidente “sem rival”, ainda não bradava que o “Brasil era dos brasileiros”, o Dr. Homero nem sonhava em enriquecer para depois pretender liquidar o comércio – e a maioria dos empregados dos bancos estrangeiros era brasileira. Para você ver, meu caro Dr. Nuno Pinheiro, de como os estrangeiros pretendem excluir os brasileiros do trabalho no Brasil.


Infelizmente, se você, que visita os bancos e os fiscaliza, conhecia esta verdade, o Dr. Homero e o Dr. Epitácio estão na ignorância desses conhecimentos simples: e assim como o presidente “sem rival” acredita no que dizem a propósito da pessoa, o Dr. Homero, entre outras pressões, inventou a impagável obrigação dos bancos terem pelo menos um terço de empregados brasileiros, quando já tinham mais de metade!


Essa “rata” monumental patenteia, além da ignorância, a má vontade, a mania autocrática – porque, meu caro Dr. Nuno, você sabe muito bem que em país nenhum se obriga o particular a ter os empregados que o governo quer. O disparate impertinente seria o mesmo que o Dr. Epitácio exigir ter eu neste jornal de brasileiros sem distinções de estados, obrigatoriamente três literatos da Paraíba do Norte!


Que se há de fazer? O tiro da nacionalização dos empregados nos bancos saiu pela culatra. Mas isso não impede a guerra aos bancos estrangeiros. Na Argentina basta o atestado do cônsul respectivo para que um banco estrangeiro possa estabelecer sucursal ali. Aqui, entre outras dificuldades, fazem essa pergunta: a casa matriz responsabiliza-se pela sucursal?


Enfim, o Dr. Homero é bem o que dizia o Renato Lopes no Jornal:

“Antes de qualquer análise há de lhes ressaltar o espírito tacanho e burocrata, esse espírito limitado; que nunca logrou romper o âmbito estreito da repartição, sem ar, sem iniciativa, incapaz de viver por si só, eterno despeitado e azedo, que se sente roubado pela atividade dos outros, e para quem todo o comércio é ilegítimo e todo lucro decorrente do trabalho e do esforço é um ultraje.”


Felizmente, você, com o seu jovem e aclarado patriotismo, é sempre uma atenuante ao jacobinismo da incapacidade financeira do Dr. Homero.

Com saudações por isso


João do Rio


[COB1]www.teses.usp.br/.../2011_GuillaumeAzevedoMarquesdeSaes_VRev.pdf

Nessa tese o autor menciona o economista Leroy-Beaulieu, não sei se é o caso.

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