• Cristiane d'Avila

Segunda-feira, 25/10/1920

Atualizado: Jun 15

Coluna Bilhete


Transcrição


Senhor Belfort Ramos – Lisboa – Meu caro Belfort. Bom dia! Na tensão nervosa em que você deve estar, este bilhete, pode ter a certeza, não o prejudicará. É bilhete de cumprimentos. Você é um dos muitos casos demonstrativos de quanto nos querem bem os portugueses. Há doze anos, em Lisboa, você dizia-me: “Desejava não deixar Lisboa”. E podendo ser hoje ministro, se tivesse aceitado transferências, você preferiu sacrificar a sua carreira diplomática, tão dignamente cumprida sempre, a deixar a capital de Portugal e o ambiente de carinho, de amizade, de respeito com que em Portugal é costume envolver tudo o que é brasileiro.


Imagino eu agora a sua situação, sabendo que os seus amigos e toda a população estão lendo os jornais em que são narradas as cenas do Pará e do Rio de Janeiro; imagino a sua perplexidade recebendo os papéis distribuídos por cá, em que são insultados os portugueses, sem que o governo tome a menor providência, sendo o Dr. Epitácio Pessoa presidente de honra da Ação que, com a bandeira desfraldada, dá pelas ruas o aspecto boxer do Rio, pois que também resolve não ver tal coisa o seu presidente efetivo, Sr. Conde Affonso Celso.


Os diplomatas brasileiros, que os nossos escrevinhadores sem o que fazer transformaram para o público em passeadores de boulevard “comendo o dinheiro do Estado”, são patriotas que trabalham e vivem à espera de respostas da nossa Chancelaria, sem programa, sem compreensão da nossa diretriz na política externa.


Quando o Sr. Epitácio passeou a Europa e viu os nossos diplomatas horrivelmente mal pagos, tremendamente sacrificados, houve quase a esperança de que com a sua ascensão à presidência as coisas mudariam. Mas o Dr. Epitácio é, no fundo, provinciano, e a reforma assinada pelo antigo professor Azevedo Marques seria pior do que tudo, se ainda de quebra não tivesse ficado na pasta o nosso venerando e mesmíssimo Marques – pois, assim, todos os diplomatas brasileiros estão em definitiva amarrados ao indecifrável.


Você, enquanto o querido Fontoara Xavier estava lá brilhando, devia limitar a sua responsabilidade. Mas, Fontoara no Palace Hotel do Rio e você no Avenida Palace de Lisboa, é você o encarregado de negócios, é você o embaixador do Brasil, é você a ter de informar, responder, receber e mandar notas que são de fato excessivamente graves. Como se arranjará o meu caro diplomata? Fazendo o que fez: assegurando aos jornais que não há nada e que os poveiros foram embora em massa porque lhes deu de repente vontade de mostrar aos filhos brasileiros a Póvoa de Várzea.


Há certas inverdades heroicas. Você heroicamente procedeu. E no heroísmo das suas informações, contra os telegramas e os artigos que os jornais daí transcrevem, há patriotismo, há equilíbrio, há um verdadeiro diplomata amigo do seu país e sabendo que só pode ter motivos para amar e respeitar o país em que está.

Meus sinceros parabéns.


Tenha porém a certeza de que as suas declarações serão verdades amanhã, quando os homens de responsabilidade aquilatarem totalmente o desastroso efeito que foi para o Brasil ver partir 1.200 homens portugueses, que se revoltaram contra uma patente e clamorosa violência aos seus direitos, garantidos pela nossa Constituição e mesmo pelas ??? da Capitania do Porto.


Este bilhete leva-lhe com as minhas saudações uma informação. Como o peixe está cada vez mais caro e os pescadores da Avenida não se atiram ao oceano, já em Niterói corre a notícia de que se pode pescar sem ter o prévio atestado de naturalização.

Dirá você que é tortuoso o processo, que se mantém o cutelo erguido, sustendo o golpe apenas para que os pobres pescadores não mostrem que eram necessários. Mas enfim – é bem o começo do fim dessa mirabolante ideia de achar que os poveiros eram traidores se não se fizessem na mesma hora, brasileiros da qualidade dos trinta pândegos japoneses que são nossos cidadãos em Cabo Frio...

Cordialmente


João do Rio

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